‘O que nós queremos do amor e o que os outros querem do nosso amor é que ele nos agarre pela mão e nos diga: «Anda, eu sou a solução para todos os teus problemas.» Quando nos dirigimos a um amigo ou a alguém da nossa confiança e dizemos «Estou apaixonado.» – assim, tão afirmativamente -, não é comum que nos perguntem o essencial sobre o nosso amor. Perguntam-nos que coisas faz na vida, se é bonito, se é um bom partido, se é bom na cama, que idade tem, se já coleccionou outras pessoas antes de entrarmos na sua caderneta ou, em última análise, se gostamos dele – a pergunta que fazem sempre os amigos mais verdadeiros. Nunca nos perguntam: «E ouve lá, isso é publicável?», que é o mesmo que perguntar se o nosso amor tem literatura suficiente para chegar a ser livro. Não me parece que «Sim.» seja a resposta ideal. Raramente a literatura tem algo de insondável e, mais importante do que isto, aquilo que há de insondável na literatura compete com a nossa vontade de a explicarmos. O verdadeiro amor é, pois, aquele que não é publicável, que não é amor-narrativa, o amor sem espaço, sem tempo, sem demasiada acção ou demasiado enredo. É, quem sabe, o amor que, quando acaba, não nos deixa nada para além dele mesmo, ou seja, é o amor que não acaba.’
palavras perdidas por aí
